
Sexta-feira, com sol, temperatura amena. Boa disposição portanto.
Depois de dar uma vista de olhos “indignada” nas alterações do novo acordo ortográfico, sigo até ao sítio do costume para tomar o café da manhã. Numa mesa, dois senhores do grupo de reformados que se costumam juntar todas as manhãs para discutir as notícias dos jornais, ou simplesmente “jogar conversa fora”. Noutra o dono do café com uma senhora.
Antes de me sentar, “abocanho” os jornais do dia, para ver na diagonal. Chega o café, sem que o tenha pedido. Despacho o Diário de Leiria e prossigo n’A Bola, quando passam por mim os dois senhores da mesa do fundo, a caminho da porta. Nisto um deles, com cara de avozinho volta para trás e interpela-me: “Desculpe… a Sra. mede quanto?”
Sorri, pensando que possivelmente teriam estado a tentar acertar na minha altura.
“1.76”, respondi. “Aaaah” bocejou o senhor com satisfação. “Afinal não é mais alta que eu! Eu meço 1.81!”, disse orgulhoso. “É muito alta!”, continuou, enquanto se afastava para a porta. “Hoje estou um bocadito maior… trouxe um tacãozito”, gracejei ainda a rir.
Findo o café, a Joanita mete à socapa atrás do “Ice Tea dos guardanapos” dois chocolates e dois biscoitos, sem que o patrão repare. “Toma! A ti trato-te bem…” bocejou entre dentes, enquanto partilhávamos um sorriso cúmplice.
Escondo logo um chocolate na boca, enquanto meto os biscoitos no bolso. O outro chocolate iria ser escondido de seguida… a caminho do banco.
Como o tempo no banco já ia longo, saio apressada para voltar ao escritório. Na porta cruzo-me com a senhora que me ensinou que o alfabeto tinha 23 e não 26 letras.
“Professora Silvina!”, disse enquanto lhe tocava para se virar para trás. De olhos arregalados e com um sorriso do tamanho do meu, responde prontamente: “Olá Cláudia!!! Estás boa?” Cumprimentamo-nos apressadamente, porque o tempo não dava para mais. “Sim! E consigo, está tudo bem?”, continuei. Ainda de olhos bem abertos e sorriso rasgado responde-me “Sim!”. “Gostei muito de a ver, mas agora tenho de ir, com muita pena minha…”continuei.
Já a sair, ainda a segurar a porta como que a prolongar aquele encontro fugaz, ouço “estás muito bonita filha!”. Agradeci, felicíssima por ter reencontrado a minha professora primária, que após tantos anos continua a lembrar-se de mim. Do meu nome… Aquele “filha” foi tão familiar, que me reconfortou. E o sorriso franco, continua inalterado.
Uma manhã tão rica em coisinhas “pequenas”.